Ubi dubiam ibi libertas! Audiatur et altera pars! Vitam impendere vero! Sapere aude!
sexta-feira, 27 de junho de 2008
O "tesão" da enganação...
O tradutor português, Vitor Guerreiro, propôs uma interessantíssima reflexão sobre a manipulação das crenças alheias a partir do conceito "mindfuck" - o qual é apresentado no livro Mindfucking (Collin McGinn - filósofo inglês). Clique no título do post para ler.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Dicas da Dad Squarisi
O meio jurídico exagera o uso de expressões que mais confundem do que esclarecem. Falar ou escrever claro é fundamental para uma melhor compreensão. E compreender não é uma das tarefas mais fáceis em nossas vidas, daí porque é importante ser o mais claro possível.
Combate ao juridiquês
por Dad Squarisi
Desembargador paranaense sugere regras para combater o juridiquês
Tido em alguns círculos do Direito do Paraná como um dos mensageiros da modernidade no Judiciário, o desembargador Francisco Rabello, do TJ daquele estado, mantém em seu gabinete uma lista, atualizada constantemente, de expressões de "juridiquês", que ficam prescritas em seus despachos, decisões e votos. Tudo em nome da aproximação.
"Ninguém sabe o que querem dizer determinadas estranhas palavras; o Judiciário precisa simplificar sua linguagem, para ser entendido", diz Rabello.
Entre as regras a obedecer, as peças produzidas no gabinete devem, quando for o caso, sempre se referir à "petição inicial" - e jamais à "peça vestibular", "peça de ingresso", "exordial", "proemial", "inaugural", "prefacial" ou outro qualquer rebatismo que se possa imaginar.
"Ação contra o réu" é outro pecado que comete quem, erroneamente, supõe que o direito de ação tem como titular passivo o adversário, o outro sujeito da relação jurídica litigiosa, quando o Estado é que é esse titular. "Por isso é lícito dizer que a demanda é proposta com relação a alguém, ou, então que foi proposta a ação em face de beltrano" - refere exemplificativamente o magistrado.
Numa relação intitulada "Palavras que não devem ser usadas em escritos judiciais" - e afixada no gabinete - existem atualmente 38 termos (veja relação adiante). Essa lista será ampliada sempre que o magistrado, ou seus assessores, se depararem em petições e documentos com termos obtusos ou ininteligíveis. Assim, é conveniente que não só advogados paranaense - mas, por extensão, de todo o Brasil, evitem as seguintes expressões:
* Alcaide
* A nível (de)
* Ao (ou no) apagar das luzes
* Ao meu ver
* Através de
* Causídico
* Citado editaliciamente
* Claro como o sol do meio-dia
* De vez que
* Edil
* Edilidade
* Eis que
* Elemento (pessoa)
* Elo de ligação
* Embasar, embasamento
* Encarar de frente
* Enfrentar de frente
* Ente querido
* Entrar dentro
* Entrementes
* Erário público
* Fazem x anos (fazer = tempo > impessoal)
* Há x anos atrás
* Inobstante
* Lugar incerto e não sabido
* Manter o mesmo
* Manter o seu
* Meliante
* Monopólio exclusivo
* O processo (a ação) deu entrada junto ao
* Juízo tal
* Prefeitura municipal
* Sendo que
* Tangentemente
* Todos são unânimes
* Todos foram unânimes
* Varoa
* Virago
(colaboração encaminhada por Roldão Simas Filho)
Data: 09.06.2008
Combate ao juridiquês
por Dad Squarisi
Desembargador paranaense sugere regras para combater o juridiquês
Tido em alguns círculos do Direito do Paraná como um dos mensageiros da modernidade no Judiciário, o desembargador Francisco Rabello, do TJ daquele estado, mantém em seu gabinete uma lista, atualizada constantemente, de expressões de "juridiquês", que ficam prescritas em seus despachos, decisões e votos. Tudo em nome da aproximação.
"Ninguém sabe o que querem dizer determinadas estranhas palavras; o Judiciário precisa simplificar sua linguagem, para ser entendido", diz Rabello.
Entre as regras a obedecer, as peças produzidas no gabinete devem, quando for o caso, sempre se referir à "petição inicial" - e jamais à "peça vestibular", "peça de ingresso", "exordial", "proemial", "inaugural", "prefacial" ou outro qualquer rebatismo que se possa imaginar.
"Ação contra o réu" é outro pecado que comete quem, erroneamente, supõe que o direito de ação tem como titular passivo o adversário, o outro sujeito da relação jurídica litigiosa, quando o Estado é que é esse titular. "Por isso é lícito dizer que a demanda é proposta com relação a alguém, ou, então que foi proposta a ação em face de beltrano" - refere exemplificativamente o magistrado.
Numa relação intitulada "Palavras que não devem ser usadas em escritos judiciais" - e afixada no gabinete - existem atualmente 38 termos (veja relação adiante). Essa lista será ampliada sempre que o magistrado, ou seus assessores, se depararem em petições e documentos com termos obtusos ou ininteligíveis. Assim, é conveniente que não só advogados paranaense - mas, por extensão, de todo o Brasil, evitem as seguintes expressões:
* Alcaide
* A nível (de)
* Ao (ou no) apagar das luzes
* Ao meu ver
* Através de
* Causídico
* Citado editaliciamente
* Claro como o sol do meio-dia
* De vez que
* Edil
* Edilidade
* Eis que
* Elemento (pessoa)
* Elo de ligação
* Embasar, embasamento
* Encarar de frente
* Enfrentar de frente
* Ente querido
* Entrar dentro
* Entrementes
* Erário público
* Fazem x anos (fazer = tempo > impessoal)
* Há x anos atrás
* Inobstante
* Lugar incerto e não sabido
* Manter o mesmo
* Manter o seu
* Meliante
* Monopólio exclusivo
* O processo (a ação) deu entrada junto ao
* Juízo tal
* Prefeitura municipal
* Sendo que
* Tangentemente
* Todos são unânimes
* Todos foram unânimes
* Varoa
* Virago
(colaboração encaminhada por Roldão Simas Filho)
Data: 09.06.2008
sábado, 7 de junho de 2008
Por que não valorizamos a Filosofia?
O prof. Paulo Ghiraldelli Jr. (pronuncia-se "Guiraldelli") escreveu uma interessante reflexão sobre o esforço que os norte-americanos têm feito em relação a valorização do pensamento filosófico. Vale a pena ler. Clique no título do post para acessar o blog do prof. Ghiraldelli.
domingo, 1 de junho de 2008
O direito de caricaturar de Ronald Dworkin
Nesse texto o filósofo norte-americano, Ronald Dworkin, cuja área de estudos é o Direito, analisa a possibilidade de o humor não ser tido como passível de repressão violenta como tem acontecido quando o alvo do humor são as crenças religiosas, em especial, e cita o caso das caricaturas no jornal dinamarquês, que alguns muçulmanos imputaram ser do profeta Mohammed. É interessante observar que em regimes autoritários e totalitários o principal inimigo é a possibilidade de o humor servir de contraponto crítico. Daí porque qualquer atitude autoritária ou totalitária encare o humor como algo a ser duramente combatido. Alguns poderão objetar que há uma diferença entre humor, sarcasmo, escárnio e ridicularizar, mas a questão é: o quanto o uso do humor como forma legítima de livre expressão deva ser limitado devido àqueles que admitem crenças (quaisquer que sejam) considerarem o humor "abusivo"? Na Grécia Antiga o método irônico causou a condenação de Sócrates. O limite entre o ofensivo e o expressivo é uma construção delicada nas relações entre os que pensam e agem diferentemente.
19 de Março de 2006 · Opinião
O direito de ridicularizar
Ronald Dworkin
Universidade de Nova Iorque
A imprensa britânica e americana fizeram bem, no cômputo geral, em não reproduzir as caricaturas dinamarquesas que foram objecto do protesto de milhões de muçulmanos furiosos, recorrendo à destruição violenta e terrível um pouco por todo o mundo. Reproduzir as caricaturas teria muito provavelmente como resultado — e pode ainda ter esse resultado — que mais pessoas seriam mortas e mais propriedade seria destruída. Teria causado muito sofrimento a muitos muçulmanos britânicos e americanos porque os outros muçulmanos lhes teriam dito que a publicação das caricaturas tinha por objectivo mostrar desprezo pela sua religião, e ainda que tal impressão tivesse sido, na maior parte dos casos, incorrecta e injustificada, o sofrimento seria, contudo, genuíno. É verdade que os leitores e telespectadores que têm seguido esta história podem muito bem ter desejado ajuizar por si o impacto, humor e grau de ofensa das caricaturas, pelo que a imprensa pode ter sentido que tinha o dever de lhes dar essa oportunidade. Mas o público não tem o direito de ler ou ver o que quer independentemente do preço a pagar, e as caricaturas, em qualquer caso, estão facilmente disponíveis na Internet.
Por vezes, a autocensura da imprensa significa uma perda de informação, argumento, literatura ou arte de valor, mas isso não aconteceu neste caso. Não publicar as caricaturas pode dar uma vitória aos fanáticos e às autoridades que instigaram os protestos violentos e, portanto, pode incitá-los a adoptar tácticas semelhantes no futuro. Mas há fortes provas de que a onda de tumultos e destruição — subitamente, quatro meses depois de as caricaturas terem sido publicadas — foi orquestrada por líderes muçulmanos da Dinamarca e do médio oriente que têm razões políticas mais abrangentes. Se esta análise estiver correcta, manter o tema na ordem do dia, voltando a reproduzir as caricaturas, estaria de facto a servir os interesses dos responsáveis pela violência e a recompensar as suas estratégias de encorajar a violência.
Há um perigo real, contudo, de que a decisão da imprensa britânica e americana de não reproduzir as caricaturas, apesar de sábia, será erradamente tomada como uma aceitação da opinião largamente partilhada de que a liberdade de expressão tem limites, que tem de se conter face às virtudes do "multiculturalismo", e que o governo de Blair tinha afinal razão ao propor que seja um crime publicar algo que seja visto como "abusivo ou insultuoso" por qualquer grupo religioso.
A liberdade de expressão não é apenas um emblema especial da cultura ocidental, que a distingue das outras, e que se pode generosamente limitar ou qualificar como medida de respeito por outras culturas que a rejeitam, do mesmo modo que se pode adicionar um crescente islâmico ou uma estrela judaica a um estandarte religioso cristão. A liberdade de expressão é uma condição do governo legítimo. As leis e as políticas não são legítimas a menos que tenham sido adoptadas através de um processo democrático, e um processo não é democrático se o governo impediu qualquer pessoa de expressar as suas convicções sobre o que tais leis e políticas devem ser.
Ridicularizar é uma forma característica de expressão; a sua substância não pode ser traduzida numa forma retórica menos ofensiva sem expressar algo muito diferente do que se pretendia. É por isso que as caricaturas e outras formas de ridicularizar têm estado, ao longo dos séculos, mesmo quando era ilegal, entre as mais importantes armas tanto de movimentos políticos nobres como corruptos.
Assim, numa democracia, seja poderoso ou impotente, ninguém pode ter o direito de não ser insultado ou ofendido. Este princípio é de particular importância numa nação que procura arduamente a justiça racial e étnica. Se as minorias fracas ou impopulares querem ser protegidas por lei contra a discriminação económica ou legal — se querem leis que proíbam que sejam discriminados no que respeita ao emprego, por exemplo — têm de estar dispostos a tolerar sejam quais forem os insultos ou as ridicularizações que as pessoas que se opõem a tal legislação oferecem aos eleitores, porque só uma comunidade que permite tal insulto como parte do debate público pode ter a legitimidade para adoptar tais leis. Se queremos que os fanáticos aceitem o veredicto da maioria depois de esta o declarar, então temos de permitir que exprimam o seu fanatismo no processo cujo veredicto lhes pedimos que aceitem. Seja o que for que o multiculturalismo signifique — seja o que for que signifique um maior "respeito" por todos os cidadãos e grupos — estas virtudes anular-se-iam a si mesmas se as concebêssemos de modo a justificar a censura oficial.
Os muçulmanos que ficaram indignados com as caricaturas dinamarquesas sublinham que em muitos países europeus é um crime negar publicamente, como fez o presidente do Irão, a existência do Holocausto. Dizem que a preocupação do ocidente com a liberdade de expressão é apenas uma hipocrisia interesseira, e têm razão. Mas é claro que o remédio não é comprometer ainda mais a legitimidade democrática, mas encontrar uma nova compreensão da Convenção Europeia sobre os Direitos Humanos que veja a lei contra a negação do Holocausto, e outras semelhantes, em toda a Europa, como o que realmente são: violações da liberdade de expressão que essa convenção exige.
Diz-se muitas vezes que a religião é especial porque as convicções religiosas das pessoas são tão centrais para as suas personalidades que não se deve pedir-lhes que tolerem quem ridiculariza as suas crenças, e porque podem sentir que têm o dever religioso de contra-atacar perante o que tomam como sacrílego. O Reino Unido aceitou aparentemente essa perspectiva, pois continua a considerar a blasfémia como um crime, ainda que apenas no caso de insultos ao cristianismo. Mas não podemos abrir uma excepção para o insulto religioso se quisermos usar a lei para proteger outros aspectos do livre exercício da religião. Se queremos proibir a polícia de, ao fazer buscas especiais, se concentrar nas pessoas que parecem muçulmanas ou se vestem como tal, por exemplo, não podemos ao mesmo tempo proibir as pessoas de se opor a essa política invocando, em caricaturas ou por outros meios, que o islamismo é sinónimo de terrorismo, por mais disparatada consideremos tal opinião. Devemos certamente criticar o juízo e o bom-gosto de tais pessoas. Mas é a religião que tem de observar os princípios da democracia — e não o contrário. Não se pode permitir que religião alguma faça leis para todas as pessoas sobre o que se pode ou não desenhar, tal como não se pode permitir que possa fazer leis para toda a gente sobre o que se pode ou não comer. Nenhumas convicções religiosas podem sobrepor-se à liberdade que torna a democracia possível.
Ronald Dworkin
Tradução de Desidério Murcho
Publicado em The New York Review of Books (23 de Março de 2006)
19 de Março de 2006 · Opinião
O direito de ridicularizar
Ronald Dworkin
Universidade de Nova Iorque
A imprensa britânica e americana fizeram bem, no cômputo geral, em não reproduzir as caricaturas dinamarquesas que foram objecto do protesto de milhões de muçulmanos furiosos, recorrendo à destruição violenta e terrível um pouco por todo o mundo. Reproduzir as caricaturas teria muito provavelmente como resultado — e pode ainda ter esse resultado — que mais pessoas seriam mortas e mais propriedade seria destruída. Teria causado muito sofrimento a muitos muçulmanos britânicos e americanos porque os outros muçulmanos lhes teriam dito que a publicação das caricaturas tinha por objectivo mostrar desprezo pela sua religião, e ainda que tal impressão tivesse sido, na maior parte dos casos, incorrecta e injustificada, o sofrimento seria, contudo, genuíno. É verdade que os leitores e telespectadores que têm seguido esta história podem muito bem ter desejado ajuizar por si o impacto, humor e grau de ofensa das caricaturas, pelo que a imprensa pode ter sentido que tinha o dever de lhes dar essa oportunidade. Mas o público não tem o direito de ler ou ver o que quer independentemente do preço a pagar, e as caricaturas, em qualquer caso, estão facilmente disponíveis na Internet.
Por vezes, a autocensura da imprensa significa uma perda de informação, argumento, literatura ou arte de valor, mas isso não aconteceu neste caso. Não publicar as caricaturas pode dar uma vitória aos fanáticos e às autoridades que instigaram os protestos violentos e, portanto, pode incitá-los a adoptar tácticas semelhantes no futuro. Mas há fortes provas de que a onda de tumultos e destruição — subitamente, quatro meses depois de as caricaturas terem sido publicadas — foi orquestrada por líderes muçulmanos da Dinamarca e do médio oriente que têm razões políticas mais abrangentes. Se esta análise estiver correcta, manter o tema na ordem do dia, voltando a reproduzir as caricaturas, estaria de facto a servir os interesses dos responsáveis pela violência e a recompensar as suas estratégias de encorajar a violência.
Há um perigo real, contudo, de que a decisão da imprensa britânica e americana de não reproduzir as caricaturas, apesar de sábia, será erradamente tomada como uma aceitação da opinião largamente partilhada de que a liberdade de expressão tem limites, que tem de se conter face às virtudes do "multiculturalismo", e que o governo de Blair tinha afinal razão ao propor que seja um crime publicar algo que seja visto como "abusivo ou insultuoso" por qualquer grupo religioso.
A liberdade de expressão não é apenas um emblema especial da cultura ocidental, que a distingue das outras, e que se pode generosamente limitar ou qualificar como medida de respeito por outras culturas que a rejeitam, do mesmo modo que se pode adicionar um crescente islâmico ou uma estrela judaica a um estandarte religioso cristão. A liberdade de expressão é uma condição do governo legítimo. As leis e as políticas não são legítimas a menos que tenham sido adoptadas através de um processo democrático, e um processo não é democrático se o governo impediu qualquer pessoa de expressar as suas convicções sobre o que tais leis e políticas devem ser.
Ridicularizar é uma forma característica de expressão; a sua substância não pode ser traduzida numa forma retórica menos ofensiva sem expressar algo muito diferente do que se pretendia. É por isso que as caricaturas e outras formas de ridicularizar têm estado, ao longo dos séculos, mesmo quando era ilegal, entre as mais importantes armas tanto de movimentos políticos nobres como corruptos.
Assim, numa democracia, seja poderoso ou impotente, ninguém pode ter o direito de não ser insultado ou ofendido. Este princípio é de particular importância numa nação que procura arduamente a justiça racial e étnica. Se as minorias fracas ou impopulares querem ser protegidas por lei contra a discriminação económica ou legal — se querem leis que proíbam que sejam discriminados no que respeita ao emprego, por exemplo — têm de estar dispostos a tolerar sejam quais forem os insultos ou as ridicularizações que as pessoas que se opõem a tal legislação oferecem aos eleitores, porque só uma comunidade que permite tal insulto como parte do debate público pode ter a legitimidade para adoptar tais leis. Se queremos que os fanáticos aceitem o veredicto da maioria depois de esta o declarar, então temos de permitir que exprimam o seu fanatismo no processo cujo veredicto lhes pedimos que aceitem. Seja o que for que o multiculturalismo signifique — seja o que for que signifique um maior "respeito" por todos os cidadãos e grupos — estas virtudes anular-se-iam a si mesmas se as concebêssemos de modo a justificar a censura oficial.
Os muçulmanos que ficaram indignados com as caricaturas dinamarquesas sublinham que em muitos países europeus é um crime negar publicamente, como fez o presidente do Irão, a existência do Holocausto. Dizem que a preocupação do ocidente com a liberdade de expressão é apenas uma hipocrisia interesseira, e têm razão. Mas é claro que o remédio não é comprometer ainda mais a legitimidade democrática, mas encontrar uma nova compreensão da Convenção Europeia sobre os Direitos Humanos que veja a lei contra a negação do Holocausto, e outras semelhantes, em toda a Europa, como o que realmente são: violações da liberdade de expressão que essa convenção exige.
Diz-se muitas vezes que a religião é especial porque as convicções religiosas das pessoas são tão centrais para as suas personalidades que não se deve pedir-lhes que tolerem quem ridiculariza as suas crenças, e porque podem sentir que têm o dever religioso de contra-atacar perante o que tomam como sacrílego. O Reino Unido aceitou aparentemente essa perspectiva, pois continua a considerar a blasfémia como um crime, ainda que apenas no caso de insultos ao cristianismo. Mas não podemos abrir uma excepção para o insulto religioso se quisermos usar a lei para proteger outros aspectos do livre exercício da religião. Se queremos proibir a polícia de, ao fazer buscas especiais, se concentrar nas pessoas que parecem muçulmanas ou se vestem como tal, por exemplo, não podemos ao mesmo tempo proibir as pessoas de se opor a essa política invocando, em caricaturas ou por outros meios, que o islamismo é sinónimo de terrorismo, por mais disparatada consideremos tal opinião. Devemos certamente criticar o juízo e o bom-gosto de tais pessoas. Mas é a religião que tem de observar os princípios da democracia — e não o contrário. Não se pode permitir que religião alguma faça leis para todas as pessoas sobre o que se pode ou não desenhar, tal como não se pode permitir que possa fazer leis para toda a gente sobre o que se pode ou não comer. Nenhumas convicções religiosas podem sobrepor-se à liberdade que torna a democracia possível.
Ronald Dworkin
Tradução de Desidério Murcho
Publicado em The New York Review of Books (23 de Março de 2006)
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Por que as mulheres são tão chatas no amor?
A escritora Lia Luft escreveu há algum tempo um interessante e provocador ensaio sobre o ser mulher no mundo contemporâneo. Já enviei esse texto para várias amigas e conhecidas e agora o disponibilizo aqui, no blog Esfera Pública Acadêmica, a pedidos.
Por que as mulheres são tão chatas no amor?
Por Lia Luft.
No começo diziam que eu escrevia mais para mulheres (o que é bobagem) e que minhas personagens femininas são mais fortes do que os homens (idem). Rótulos são imprecisos e empobrecedores, mas o que se há de fazer.
Depois de Rio do Meio, de 1976, passaram a dizer que eu defendia demais os homens. Na verdade nunca defendi nem me pediram que fizesse isso. Eu apenas devo ter do masculino uma visão mais positiva do que, parece, boa parte das mulheres. Tive um pai amigo, que desde criança me ensinou a cuidar da minha dignidade, e dois companheiros que me respeitaram como ser humano, empurrando-me para a frente e para cima.
No Rio, escrevi entre outras coisas que também os homens sofrem de solidão - na medida da solidão (ou da infantilidade) de suas mulheres; que também querem ser amados, ouvidos, olhados, não só criticados e cobrados.
Em palestras afirmo (para horror de muitas) que nós, mulheres, também sabemos ser muito chatas. Insatisfeitas, cobradoras, ásperas ou lamuriosas, frívolas e agitadas: nem sempre companheiras, poucas vezes cúmplices.
Está certo que andamos sobrecarregadas nesses tempos modernos, vacilando entre competência e beleza (ah, os modelos absurdos e impossíveis que permitimos que nos implantem nas belas cabeças…), correndo entre filhos e patrão, cartão de crédito ou momentinho de ócio escutando aquela música ou vendo aquele vídeo no sofá da sala em plena tarde. Sem que ninguém nos chame com aquela voz grossa e fatigada: Ô, mãããe. Sem o fantasma de mãe, tias ou avós, de mão na cintura, na soleira da porta da nossa culpa ancestral nos criticando: “Mas como! A essa hora aí atirada sem fazer nada?”
Repito que sabemos ser chatas, implicantes, desassossegadas, indiscretas e críticas. E deixamos sozinho o nosso homem, que bem ou mal é o que está do nosso lado. Pois, se for ruim demais, por que ainda estamos com ele? Filho pequeno não é desculpa para alguma grave omissão quanto à vida pessoal ou carreira: mãe sombria ou patética não ajuda filho nenhum a crescer com esperança e otimismo, necessários para não se tornar um revoltado ou apático monstrinho.
Um amigo meu, tendo sido muito rico, estava falido, e sua dor maior era ter de participar à mulher que ela não podia mais assinar um chequezinho: todos sem fundos.
Depois desse desabafo dele, pensei no que teria sido sua vida a dois, ela tratada como mais uma criança em casa, ignorando a trajetória, possivelmente as vitórias e derrotas, medos e solidão do seu marido.
Não são só as mulheres que precisam falar e ser ouvidas: na sua linguagem e no seu ritmo, que não são os nossos, se pudessem abrir o coração (o que raramente fazem) muitos homens se queixariam de que ninguém os escuta em casa. A mulher grudada nos filhos ou na televisão, no telefone com a amiga; os filhos na rua, ou fechados no quarto; e com os amigos do bar ou do escritório, os homens falam de futebol, mulher, carro, raramente de si mesmos e de sua humanidade.
Assim inventei há pouco tempo o que seria um lamento dos homens desejando que a mulher, amante ou namorada os acolhesse melhor: Que quando chego do trabalho ela largue por um instante o que estiver fazendo - filho, panela ou computador - e venha me dar um beijo como os de antigamente. Que, mesmo com o passar do tempo, os trabalhos, os sofrimentos e o peso do cotidiano, ela não perca o jeito que me encantou quando a vi pela primeira vez. Que se estou cansado demais para fazer amor ela não ironize nem diga que “até que durou muito” o meu desejo ou potência. Que quando quero fazer amor ela não se recuse demasiadas vezes nem fique impaciente ou rígida, mas cálida como foi anos atrás. Que ela não me humilhe porque estou ficando calvo ou barrigudo nem comente nossa intimidade com as amigas, como tantas mulheres fazem. Que jamais se permita comentar diante de outros, nem de brincadeira, seja positiva ou negativa, o meu desempenho sexual.
Que não tire nosso bebê dos meus braços dizendo que homem não tem jeito pra isso ou que não sei segurar a cabecinha dele, mas me ensine o que eu não souber. Que ela nunca se interponha entre mim e as crianças, mas sirva de ponte entre nós quando me distancio ou distraio demais. Que quando preciso ficar um pouco quieto ela não insista o tempo todo para que eu fale ou a escute, como se silêncio fosse sinal de falta de amor. Que quando estou com pouco dinheiro ela não me acuse de ter desperdiçado com bobagens em lugar de prover para minha família. Que quando estou trabalhando ela não telefone a toda hora para cobrar alguma coisa que esqueci de fazer ou não tive tempo. Que não se insinue com minha secretária ou colega para descobrir se tenho uma amante.
Que com ela eu também possa ter momentos de fraqueza, de ternura, me desarmar, me desnudar de alma, sem medo de ser criticado ou censurado: que ela seja minha parceira, não minha dependente nem meu juiz. Que cuide um pouco de mim como minha parceira, mas não como se eu fosse um filho desastrado e ela a mãe onipotente; que não me transforme em filho.
E que, se erro, falho, esqueço, me distancio, me fecho demais ou a machuco consciente ou inconscientemente, ela saiba me chamar de volta com aquela ternura que só nela eu descobri e desejei que não se perdesse nunca, mas me contagiasse e me tornasse mais feliz, menos solitário e muito mais humano.
Essa brincadeira séria me valeu protestos de algumas mulheres, aplausos de outras e abraços de muitos de meus amigos homens. Alguém (um homem) me escreveu dizendo que suspeitava de que o texto tivesse sido escrito pelo meu “maridão”. Respondi ao e-mail com outro informando que só se fosse em sessão espírita, pois há muitos anos eu já enviuvara pela segunda vez. E se eu dissesse que o pai de meus filhos, ilustre gramático e lingüista, jamais escrevera uma linha de meus tantos livros, essa pessoa não acreditaria também.
De modo que, sim, eu acho que não somos santas nem temos obrigação de ser, mas bem que aqui e ali valeria a pena parar, olhar, escutar; dentro de si, e ao lado, onde está aquele com quem afinal partilhamos a vida.
Temos escutado o que ele diz ou o que nos diz seu silêncio? Temos ainda lembrado de agradar, elogiar, sorrir, fazer carinho ou estamos demais ocupadas botando Botox na cara e passando horas na academia com medo de que o tempo nos devore o que sobrou da nossa alma?
Ainda pensamos nele, nas suas necessidades, emoções, desejo, frustrações, medo e fraquezas, como quando éramos namorados - ou estamos demais distraídas com as amigas, o bingo, o carteado, a butique, o mais recente mexerico sobre artistas de televisão ou sobre a vizinha? Não sei. Receio que responder seja tão duro quanto perguntar.
Não acho que a gente deva ser boazinha, gueixa submissa ou serviçal ressentida, menininha de voz fina gingando em saltos altíssimos pela casa ou arrastando-se às 4 da tarde de robe e pantufas com cara de cachorro (vi numa vitrine umas com orelhas!).
Importante seria não deixar que a poeira da banalidade abafasse o que havia entre a gente de encantamento e magia, ainda que o namorado agora seja um marido mais barrigudo, e menos cabeludo, de óculos, que chega em casa cansado demais pra reparar no quanto estamos bonitas ou exaustas demais.
O bom seria que continuássemos amantes, sendo também amigos. Pois amor é amizade com sensualidade: se não gosto do outro com seus defeitos e qualidades, manias e até pequenas loucuras, como foi que o escolhi para viver comigo numa casa, na mesma mesa, cama e talvez todo o tempo de minha existência?
Acho que, sim, somos demasiadas vezes chatas, cobradoras, secas, lamurientas, infantis e de um egoísmo retumbante. Embora gostemos de nos apresentar como incompreendidas ou maltratadas, merecedoras de todas as compensações imagináveis, é bom ponderar que a mulher-vítima e a mãe-mártir inspiram culpa e aflição e perturbam toda uma família.
Melhor ser natural. Melhor ser generosa com limites, sem se deixar explorar; melhor ser bem-humorada, porque alegria é muitas vezes a última esperança de um velho amor. Melhor ainda, melhor mesmo, é abraçar, fazer aquele carinho, olhar fundo no olho, e dizer alguma palavra antiga, esquecida nas correrias cotidianas. O coração se renova com a mesma fagulha que, há dois anos ou 20 ou até mais, fazia cada encontro uma emoção, e a gente sentia que ali, sim, estava o que mais queríamos na vida. Resta saber o que fizemos com aquela relação e como temos afinal lidado com esse homem que foi o objeto máximo de nosso desejo e sonho.
Por que as mulheres são tão chatas no amor?
Por Lia Luft.
No começo diziam que eu escrevia mais para mulheres (o que é bobagem) e que minhas personagens femininas são mais fortes do que os homens (idem). Rótulos são imprecisos e empobrecedores, mas o que se há de fazer.
Depois de Rio do Meio, de 1976, passaram a dizer que eu defendia demais os homens. Na verdade nunca defendi nem me pediram que fizesse isso. Eu apenas devo ter do masculino uma visão mais positiva do que, parece, boa parte das mulheres. Tive um pai amigo, que desde criança me ensinou a cuidar da minha dignidade, e dois companheiros que me respeitaram como ser humano, empurrando-me para a frente e para cima.
No Rio, escrevi entre outras coisas que também os homens sofrem de solidão - na medida da solidão (ou da infantilidade) de suas mulheres; que também querem ser amados, ouvidos, olhados, não só criticados e cobrados.
Em palestras afirmo (para horror de muitas) que nós, mulheres, também sabemos ser muito chatas. Insatisfeitas, cobradoras, ásperas ou lamuriosas, frívolas e agitadas: nem sempre companheiras, poucas vezes cúmplices.
Está certo que andamos sobrecarregadas nesses tempos modernos, vacilando entre competência e beleza (ah, os modelos absurdos e impossíveis que permitimos que nos implantem nas belas cabeças…), correndo entre filhos e patrão, cartão de crédito ou momentinho de ócio escutando aquela música ou vendo aquele vídeo no sofá da sala em plena tarde. Sem que ninguém nos chame com aquela voz grossa e fatigada: Ô, mãããe. Sem o fantasma de mãe, tias ou avós, de mão na cintura, na soleira da porta da nossa culpa ancestral nos criticando: “Mas como! A essa hora aí atirada sem fazer nada?”
Repito que sabemos ser chatas, implicantes, desassossegadas, indiscretas e críticas. E deixamos sozinho o nosso homem, que bem ou mal é o que está do nosso lado. Pois, se for ruim demais, por que ainda estamos com ele? Filho pequeno não é desculpa para alguma grave omissão quanto à vida pessoal ou carreira: mãe sombria ou patética não ajuda filho nenhum a crescer com esperança e otimismo, necessários para não se tornar um revoltado ou apático monstrinho.
Um amigo meu, tendo sido muito rico, estava falido, e sua dor maior era ter de participar à mulher que ela não podia mais assinar um chequezinho: todos sem fundos.
Depois desse desabafo dele, pensei no que teria sido sua vida a dois, ela tratada como mais uma criança em casa, ignorando a trajetória, possivelmente as vitórias e derrotas, medos e solidão do seu marido.
Não são só as mulheres que precisam falar e ser ouvidas: na sua linguagem e no seu ritmo, que não são os nossos, se pudessem abrir o coração (o que raramente fazem) muitos homens se queixariam de que ninguém os escuta em casa. A mulher grudada nos filhos ou na televisão, no telefone com a amiga; os filhos na rua, ou fechados no quarto; e com os amigos do bar ou do escritório, os homens falam de futebol, mulher, carro, raramente de si mesmos e de sua humanidade.
Assim inventei há pouco tempo o que seria um lamento dos homens desejando que a mulher, amante ou namorada os acolhesse melhor: Que quando chego do trabalho ela largue por um instante o que estiver fazendo - filho, panela ou computador - e venha me dar um beijo como os de antigamente. Que, mesmo com o passar do tempo, os trabalhos, os sofrimentos e o peso do cotidiano, ela não perca o jeito que me encantou quando a vi pela primeira vez. Que se estou cansado demais para fazer amor ela não ironize nem diga que “até que durou muito” o meu desejo ou potência. Que quando quero fazer amor ela não se recuse demasiadas vezes nem fique impaciente ou rígida, mas cálida como foi anos atrás. Que ela não me humilhe porque estou ficando calvo ou barrigudo nem comente nossa intimidade com as amigas, como tantas mulheres fazem. Que jamais se permita comentar diante de outros, nem de brincadeira, seja positiva ou negativa, o meu desempenho sexual.
Que não tire nosso bebê dos meus braços dizendo que homem não tem jeito pra isso ou que não sei segurar a cabecinha dele, mas me ensine o que eu não souber. Que ela nunca se interponha entre mim e as crianças, mas sirva de ponte entre nós quando me distancio ou distraio demais. Que quando preciso ficar um pouco quieto ela não insista o tempo todo para que eu fale ou a escute, como se silêncio fosse sinal de falta de amor. Que quando estou com pouco dinheiro ela não me acuse de ter desperdiçado com bobagens em lugar de prover para minha família. Que quando estou trabalhando ela não telefone a toda hora para cobrar alguma coisa que esqueci de fazer ou não tive tempo. Que não se insinue com minha secretária ou colega para descobrir se tenho uma amante.
Que com ela eu também possa ter momentos de fraqueza, de ternura, me desarmar, me desnudar de alma, sem medo de ser criticado ou censurado: que ela seja minha parceira, não minha dependente nem meu juiz. Que cuide um pouco de mim como minha parceira, mas não como se eu fosse um filho desastrado e ela a mãe onipotente; que não me transforme em filho.
E que, se erro, falho, esqueço, me distancio, me fecho demais ou a machuco consciente ou inconscientemente, ela saiba me chamar de volta com aquela ternura que só nela eu descobri e desejei que não se perdesse nunca, mas me contagiasse e me tornasse mais feliz, menos solitário e muito mais humano.
Essa brincadeira séria me valeu protestos de algumas mulheres, aplausos de outras e abraços de muitos de meus amigos homens. Alguém (um homem) me escreveu dizendo que suspeitava de que o texto tivesse sido escrito pelo meu “maridão”. Respondi ao e-mail com outro informando que só se fosse em sessão espírita, pois há muitos anos eu já enviuvara pela segunda vez. E se eu dissesse que o pai de meus filhos, ilustre gramático e lingüista, jamais escrevera uma linha de meus tantos livros, essa pessoa não acreditaria também.
De modo que, sim, eu acho que não somos santas nem temos obrigação de ser, mas bem que aqui e ali valeria a pena parar, olhar, escutar; dentro de si, e ao lado, onde está aquele com quem afinal partilhamos a vida.
Temos escutado o que ele diz ou o que nos diz seu silêncio? Temos ainda lembrado de agradar, elogiar, sorrir, fazer carinho ou estamos demais ocupadas botando Botox na cara e passando horas na academia com medo de que o tempo nos devore o que sobrou da nossa alma?
Ainda pensamos nele, nas suas necessidades, emoções, desejo, frustrações, medo e fraquezas, como quando éramos namorados - ou estamos demais distraídas com as amigas, o bingo, o carteado, a butique, o mais recente mexerico sobre artistas de televisão ou sobre a vizinha? Não sei. Receio que responder seja tão duro quanto perguntar.
Não acho que a gente deva ser boazinha, gueixa submissa ou serviçal ressentida, menininha de voz fina gingando em saltos altíssimos pela casa ou arrastando-se às 4 da tarde de robe e pantufas com cara de cachorro (vi numa vitrine umas com orelhas!).
Importante seria não deixar que a poeira da banalidade abafasse o que havia entre a gente de encantamento e magia, ainda que o namorado agora seja um marido mais barrigudo, e menos cabeludo, de óculos, que chega em casa cansado demais pra reparar no quanto estamos bonitas ou exaustas demais.
O bom seria que continuássemos amantes, sendo também amigos. Pois amor é amizade com sensualidade: se não gosto do outro com seus defeitos e qualidades, manias e até pequenas loucuras, como foi que o escolhi para viver comigo numa casa, na mesma mesa, cama e talvez todo o tempo de minha existência?
Acho que, sim, somos demasiadas vezes chatas, cobradoras, secas, lamurientas, infantis e de um egoísmo retumbante. Embora gostemos de nos apresentar como incompreendidas ou maltratadas, merecedoras de todas as compensações imagináveis, é bom ponderar que a mulher-vítima e a mãe-mártir inspiram culpa e aflição e perturbam toda uma família.
Melhor ser natural. Melhor ser generosa com limites, sem se deixar explorar; melhor ser bem-humorada, porque alegria é muitas vezes a última esperança de um velho amor. Melhor ainda, melhor mesmo, é abraçar, fazer aquele carinho, olhar fundo no olho, e dizer alguma palavra antiga, esquecida nas correrias cotidianas. O coração se renova com a mesma fagulha que, há dois anos ou 20 ou até mais, fazia cada encontro uma emoção, e a gente sentia que ali, sim, estava o que mais queríamos na vida. Resta saber o que fizemos com aquela relação e como temos afinal lidado com esse homem que foi o objeto máximo de nosso desejo e sonho.
Dicas da Dad Squarisi
Eis uma excelente dica para todos nós que temos como dever de ofício a escrita. Vale a pena ler e praticar.
Puro prazer
Por Dad Squarisi
Em grego, é hedone. Em português, hedonismo. Numa e noutra língua, o significado se mantém. É prazer. A sensação gostosa fez escola. Virou doutrina da filosofia. Segundo ela, o prazer deve ser considerado o objetivo principal dos atos humanos. Alguns concordam. Outros não. Mas uma coisa é certa. Ninguém gosta de sofrer.
A regra vale para a leitura. Texto difícil não tem vez. E não é de hoje. Montaigne, no século XVI, disse com todas as letras: “Ao encontrar um trecho difícil, deixo o livro de lado”. Por quê? “A leitura é forma de felicidade”, respondeu ele. “Se lemos algo com dificuldade, o autor fracassou”, completou Jorge Luís Borges quatro séculos depois.
A observação não se restringe a livros. Engloba jornais, revistas, cartas comerciais, redações escolares, receitas de comida gostosa. Sem fisgar o leitor, adeus, emprego! Adeus, nota boa! Adeus, sobremesa dos deuses! Por isso, roguemos ao Senhor. Que Ele ilumine mentes, penas e teclados. E cada um faça a sua parte.
Escrever é verbo transitivo. Escreve-se para alguém. O alguém é o leitor. Não o perca de vista. Seja natural. Imagine que ele esteja à sua frente ou conversando com você. Fique à vontade. Espaceje suas frases com pausas. Sempre que possível, faça perguntas diretas. Confira ao texto um toque humano. Você está se dirigindo a gente de carne e osso.
Sobretudo use frases curtas. O leitor só consegue dominar determinado número de palavras. Depois, os olhos pedem uma pausa. Uma frase longa, já dizia Vinícius, não é nada mais que duas curtas.
Preste atenção às palavras. Palavras longas e pomposas funcionam como cortina de fumaça entre quem escreve e quem lê. Está em dúvida entre dois
vocábulos? Prefira o mais curto. Entre dois curtos? O mais expressivo.
Como avaliar o índice de dificuldade do texto? Existe o teste de legibilidade. Quer tentar? Pegue um escrito seu. Pode ser uma carta, um artigo, uma redação. Depois, siga a receita. Com um cuidado: faça parágrafo por parágrafo.
1. Conte as palavras do parágrafo.
2. Conte as frases (cada frase termina por ponto).
3. Divida o número de palavras pelo número de frases. Assim, você terá a média da palavra/frase do texto.
4. Some a média da palavra/frase do texto com o número de polissílabos.
5. Multiplique o resultado por 0,4 (média de letras da palavra na frase de língua portuguesa).
6. O produto da multiplicação é o índice de legibilidade.
Eis os possíveis resultados:
1 a 7: história em quadrinhos
8 a 10: excepcional
11 a 15: ótimo
16 a 19: pequena dificuldade
20 a 30: muito difícil
31 a 40: linguagem técnica
acima de 41: nebulosidade
Difícil? Deixe a preguiça pra lá. Avalie o parágrafo abaixo:
"Em boca fechada não entra mosca”, diz a vovó repressora. “Quem não erra perde a chance de acertar”, responde o neto sabido. Ele aprendeu que, nas organizações modernas, a competição é o primeiro mandamento. E, cada vez mais, impõe-se a necessidade de falar em público. Muitos servidores, porém, concordam com a vovó. Estremecem só de imaginar a hipótese de abrir a boca diante de uma platéia. Dizem que não nasceram para os refletores. Falta-lhes vocação. A ciência prova o contrário. Falar bem não é dom divino. Falar bem – como nadar bem, escrever bem, saltar bem – é habilidade. Exige treino.
Veja se estudamos na mesma escola:
1. Palavras do parágrafo: 101
2. Número de frases: 12
3. Média da palavra-frase (101dividido por 12): 8,41
4. 8,41 + 12 (número de polissílabos) = 20,41
5. 20,41 x 0,4 = 8,16
Resultado: legibilidade excepcional
Agora, o seu texto. Se o resultado ficou acima de 15, abra o olho. Facilite a vida do leitor. Você tem dois caminhos. Um: diminua o tamanho das frases. O outro: mande algumas proparoxítonas dar umas voltinhas. Abuse dos dois.
Puro prazer
Por Dad Squarisi
Em grego, é hedone. Em português, hedonismo. Numa e noutra língua, o significado se mantém. É prazer. A sensação gostosa fez escola. Virou doutrina da filosofia. Segundo ela, o prazer deve ser considerado o objetivo principal dos atos humanos. Alguns concordam. Outros não. Mas uma coisa é certa. Ninguém gosta de sofrer.
A regra vale para a leitura. Texto difícil não tem vez. E não é de hoje. Montaigne, no século XVI, disse com todas as letras: “Ao encontrar um trecho difícil, deixo o livro de lado”. Por quê? “A leitura é forma de felicidade”, respondeu ele. “Se lemos algo com dificuldade, o autor fracassou”, completou Jorge Luís Borges quatro séculos depois.
A observação não se restringe a livros. Engloba jornais, revistas, cartas comerciais, redações escolares, receitas de comida gostosa. Sem fisgar o leitor, adeus, emprego! Adeus, nota boa! Adeus, sobremesa dos deuses! Por isso, roguemos ao Senhor. Que Ele ilumine mentes, penas e teclados. E cada um faça a sua parte.
Escrever é verbo transitivo. Escreve-se para alguém. O alguém é o leitor. Não o perca de vista. Seja natural. Imagine que ele esteja à sua frente ou conversando com você. Fique à vontade. Espaceje suas frases com pausas. Sempre que possível, faça perguntas diretas. Confira ao texto um toque humano. Você está se dirigindo a gente de carne e osso.
Sobretudo use frases curtas. O leitor só consegue dominar determinado número de palavras. Depois, os olhos pedem uma pausa. Uma frase longa, já dizia Vinícius, não é nada mais que duas curtas.
Preste atenção às palavras. Palavras longas e pomposas funcionam como cortina de fumaça entre quem escreve e quem lê. Está em dúvida entre dois
vocábulos? Prefira o mais curto. Entre dois curtos? O mais expressivo.
Como avaliar o índice de dificuldade do texto? Existe o teste de legibilidade. Quer tentar? Pegue um escrito seu. Pode ser uma carta, um artigo, uma redação. Depois, siga a receita. Com um cuidado: faça parágrafo por parágrafo.
1. Conte as palavras do parágrafo.
2. Conte as frases (cada frase termina por ponto).
3. Divida o número de palavras pelo número de frases. Assim, você terá a média da palavra/frase do texto.
4. Some a média da palavra/frase do texto com o número de polissílabos.
5. Multiplique o resultado por 0,4 (média de letras da palavra na frase de língua portuguesa).
6. O produto da multiplicação é o índice de legibilidade.
Eis os possíveis resultados:
1 a 7: história em quadrinhos
8 a 10: excepcional
11 a 15: ótimo
16 a 19: pequena dificuldade
20 a 30: muito difícil
31 a 40: linguagem técnica
acima de 41: nebulosidade
Difícil? Deixe a preguiça pra lá. Avalie o parágrafo abaixo:
"Em boca fechada não entra mosca”, diz a vovó repressora. “Quem não erra perde a chance de acertar”, responde o neto sabido. Ele aprendeu que, nas organizações modernas, a competição é o primeiro mandamento. E, cada vez mais, impõe-se a necessidade de falar em público. Muitos servidores, porém, concordam com a vovó. Estremecem só de imaginar a hipótese de abrir a boca diante de uma platéia. Dizem que não nasceram para os refletores. Falta-lhes vocação. A ciência prova o contrário. Falar bem não é dom divino. Falar bem – como nadar bem, escrever bem, saltar bem – é habilidade. Exige treino.
Veja se estudamos na mesma escola:
1. Palavras do parágrafo: 101
2. Número de frases: 12
3. Média da palavra-frase (101dividido por 12): 8,41
4. 8,41 + 12 (número de polissílabos) = 20,41
5. 20,41 x 0,4 = 8,16
Resultado: legibilidade excepcional
Agora, o seu texto. Se o resultado ficou acima de 15, abra o olho. Facilite a vida do leitor. Você tem dois caminhos. Um: diminua o tamanho das frases. O outro: mande algumas proparoxítonas dar umas voltinhas. Abuse dos dois.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
O eterno retorno do dogmatismo religioso
Eis um interessantíssimo artigo sobre a querela evolucionismo versus criacionismo. A arrogância do dogmatismo religioso é perene. Para ler o artigo clique no título do post.
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